Charlize Theron relembra a noite em que sua mãe matou seu pai

Quando ainda era uma menina, ela presenciou um acontecimento trágico que mudaria sua vida para sempre — sua mãe matou seu pai abusivo com um tiro, agindo em legítima defesa.

Apesar desse passado devastador, ela superou as adversidades e acabou chegando a Hollywood, onde não apenas construiu uma carreira de sucesso, como também conquistou a maior honraria do cinema: um Oscar.

Uma tragédia inimaginável

Hollywood está repleta de estrelas que venceram na vida partindo do zero — desafiando todas as probabilidades e provando que estavam errados. Muitos artistas de primeira linha não começaram com privilégios ou contatos influentes; foi com determinação e muito esforço que conquistaram seu espaço entre a elite.

A atriz Charlize Theron nunca aceitou ser apenas mais um rosto bonito. Hollywood tinha um molde para mulheres como ela — bonitas, silenciosas e facilmente substituíveis. Mas ela se recusou a seguir esse caminho. Afinal, já havia enfrentado desafios muito maiores do que a maioria das pessoas consegue imaginar.

Charlize Theron é uma atriz e produtora sul-africana naturalizada norte-americana, reconhecida como uma das artistas mais bem pagas de Hollywood. Vencedora do Oscar e do Globo de Ouro, além de integrar a lista das 100 pessoas mais influentes do mundo da revista Time, ela construiu uma carreira que poucos conseguem igualar.

Mas, antes da fama e da fortuna, sua vida foi marcada por uma tragédia inimaginável.

Charlize Theron nasceu em 7 de agosto de 1975, em Benoni, na África do Sul, em uma família africâner de destaque. Sua ascendência remonta a colonos holandeses, franceses e alemães, sendo que seus antepassados franceses estavam entre os primeiros huguenotes a se estabelecerem na África do Sul.

Seu pai, Charles Theron, e sua mãe, Gerda Maritz, trabalhavam na construção de estradas, mas a história de sua família vai muito além disso — ela é até parente de Danie Theron, um conhecido líder militar da Segunda Guerra dos Bôeres.

Embora hoje Charlize Theron fale inglês fluentemente, seu primeiro idioma foi o africâner. E, apesar de um dia conquistar Hollywood, sua infância na África do Sul foi marcada tanto por privilégios quanto por dificuldades inimagináveis.

Por que ela sofria bullying na escola

Na infância, Charlize Theron era a garota que nunca parecia se encaixar, principalmente quando o assunto eram os meninos.

“Eu usava óculos enormes porque era muito míope, e os meninos não gostavam de mim”, revelou em uma entrevista recente à revista PEOPLE, em Nova York. “Eu não tinha namorados, mas tinha vários crushes.”

Ela chegou a ser ignorada por um garoto de quem gostava e, embora sonhasse em fazer parte do grupo mais popular da escola, acabou fazendo algumas “coisas malucas” na tentativa de ser aceita.

“Eu não fazia parte do grupo popular. Havia uma garota muito popular na escola por quem eu era obcecada. Quer dizer, hoje em dia você seria presa por esse tipo de coisa”, contou Theron, rindo. “Um dia eu chorei porque não consegui sentar ao lado dela.”

Seus colegas também não facilitavam, fazendo bullying por causa de seus óculos, do cabelo e das roupas.

“Na verdade, sofri muito com garotas maldosas dos 7 aos 12 anos. Eu era um desastre no ensino fundamental”, admite. “Mas superei isso quando cheguei ao ensino médio e fiquei muito mais imune a esse tipo de coisa.”

Seu pai era um alcoólatra violento

Charlize Theron cresceu na fazenda dos pais, em Benoni, nos arredores de Joanesburgo — um lugar que deveria ser tranquilo, mas que acabou se tornando o cenário de uma noite que mudaria sua vida para sempre.

Em 21 de junho de 1991, seu pai, um alcoólatra violento, voltou para casa em um acesso de fúria provocado pela embriaguez. Desta vez, a situação era ainda pior do que de costume. Percebendo que algo estava errado, uma tia telefonou para avisar a família de que Charles estava extremamente alterado.

Theron, que tinha 15 anos na época, relembrou a estranha sensação de medo que tomou conta dela.

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“A natureza lhe dá instinto. E eu sabia que algo ruim ia acontecer”, disse ela.

Quando seu pai chegou em casa, estava completamente fora de controle, fazendo ameaças contra Charlize e sua mãe, enquanto sua fúria se transformava em violência. Então, ele pegou uma arma.

“Minha mãe e eu estávamos no meu quarto, encostadas na porta porque ele estava tentando arrombá-la”, contou Charlize à NPR, acrescentando:

“As duas estavam apoiadas contra a porta, pelo lado de dentro, tentando impedir que ele entrasse. Então ele deu um passo para trás e simplesmente atirou três vezes através da porta.”

“Nenhuma das balas nos atingiu, o que foi um verdadeiro milagre”, acrescentou Charlize.

Enquanto ele atirava contra elas, a mãe de Charlize, Gerda, não teve escolha. Ela pegou sua própria arma, puxou o gatilho e atirou no marido. Foi um ato de sobrevivência.

A Justiça concluiu que ela agiu em legítima defesa — Gerda não foi acusada de nenhum crime —, mas o trauma daquela noite acompanharia Charlize para sempre.

“Pernas finas e barriga grande”

Charlize certa vez descreveu o pai como um homem alto, de “pernas finas e barriga grande”, alguém que podia ser muito sério, mas que também adorava rir e aproveitar a vida.

No entanto, ela reconheceu que ele lutava contra o alcoolismo.

“Meu pai era um homem grande, alto, de pernas finas e barriga grande”, disse Theron. “Ele podia ser muito sério, mas também adorava rir e aproveitar a vida. Ele também tinha uma doença. Era alcoólatra.”

Embora tenha esclarecido que ele nunca a agrediu fisicamente, ela admitiu: “Ele abusava verbalmente de mim.”

O episódio de 1991, obviamente, a abalou profundamente. A vencedora do Oscar refletiu sobre o impacto duradouro daquele momento:

“Essa violência familiar, esse tipo de violência que acontece dentro de casa, é algo que compartilho com muitas pessoas.”

“Não tenho vergonha de falar sobre isso, porque acredito que, quanto mais falamos dessas coisas, mais percebemos que não estamos sozinhos”, continuou. “Para mim, essa sempre foi uma história sobre crescer convivendo com pessoas dependentes de álcool e como isso afeta uma pessoa.”

Em vez de destruí-la, o trauma se tornou o combustível para sua ascensão.

“Sobrevivi a tudo isso, e tenho orgulho disso. Também trabalhei muito para conseguir seguir em frente”, disse Theron ao The New York Times. “Não tenho medo disso. Não tenho medo da escuridão. Se existe alguma coisa, é que ela me intriga, porque acho que explica melhor a natureza humana e as pessoas.”

Como Hollywood a descobriu

Segundo Theron, a verdadeira luta começou depois do tiroteio.

“Aquilo foi toda a minha infância. Meu trauma foi tudo isso”, admitiu, revelando que as consequências do episódio foram ainda mais difíceis de enfrentar do que o próprio acontecimento.

Aos 19 anos, Charlize Theron chegou a Los Angeles apenas com uma mala e uma determinação inabalável. Ela não tinha contatos nem apoio — apenas talento e uma enorme vontade de vencer. Certo dia, enquanto discutia com um funcionário de banco por causa de um cheque sem fundos, um agente de talentos ouviu a conversa. Aquele encontro por acaso abriu as portas de Hollywood, mas Charlize sabia que precisaria lutar por cada oportunidade.

Seu primeiro grande papel veio com Advogado do Diabo (1997), no qual contracenou com Al Pacino e Keanu Reeves. Hollywood começou a notar seu talento. Mas foi em 2003 que ela realmente surpreendeu o mundo. Para viver a serial killer Aileen Wuornos em Monster – Desejo Assassino, transformou completamente sua aparência, ganhou peso e deixou de lado sua imagem glamourosa. A atuação intensa lhe rendeu o Oscar de Melhor Atriz.

Charlize havia provado seu talento, mas não tinha interesse em seguir pelo caminho mais seguro.

Interpretou vários assassinos

Ela continuou desafiando expectativas, aceitando papéis em filmes de ação, drama e comédia. Tornou-se uma das mulheres mais influentes de Hollywood, tanto diante das câmeras quanto nos bastidores, produzindo filmes e defendendo melhores oportunidades para as mulheres na indústria.

Em 2015, aos 40 anos — uma idade em que Hollywood costuma deixar atrizes de lado — Charlize se reinventou mais uma vez. Como Furiosa em Mad Max: Estrada da Fúria, roubou a cena e consolidou seu legado não apenas como atriz, mas como uma verdadeira guerreira de Hollywood.

Ao longo da carreira, Theron interpretou diversos assassinos, e pode parecer surpreendente, considerando sua história de vida, que ela tenha escolhido viver a serial killer Aileen Wuornos em Monster – Desejo Assassino.

Aileen era uma ex-prostituta executada na Flórida em 2002 por matar seis homens (ela nunca foi julgada por um sétimo assassinato). Os crimes ocorreram no fim da década de 1980 e no início da década de 1990, e sua história serviu de base para o filme Monster – Desejo Assassino.

Gotham/GC Images

O crítico de cinema Roger Ebert elogiou a interpretação de Charlize Theron, classificando-a como “uma das maiores atuações da história do cinema”.

“Pessoas como Aileen Wuornos costumam ser apenas rotuladas e deixadas de lado, sem que ninguém realmente queira entendê-las”, disse Theron ao The New York Times. “Ninguém pergunta: ‘Por que isso aconteceu?’. O que me intriga é justamente o ‘porquê’. Porque, de muitas maneiras, estou aqui hoje por causa dessa mesma pergunta.”

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