À primeira vista, ela parecia qualquer garotinha comum — doce, inocente, até um pouco tímida. Mas por trás daqueles olhos havia uma escuridão que um dia chocaria uma nação inteira.
Hoje, suas fotos de infância oferecem vislumbres assustadores e perturbadores do monstro que ela viria a se tornar.
Dormia ao lado da cama dos pais
Quando investigadores analisam a vida de assassinos em série, muitas vezes voltam às origens na infância. Trauma, negligência e abuso costumam surgir como sinais de alerta de uma mente lentamente deformada em algo monstruoso. Especialistas identificaram um fator em comum: experiências precoces de crueldade emocional, isolamento e rejeição, que podem deixar uma pessoa com um profundo e duradouro sentimento de solidão.
Essa garota cresceu presenciando o alcoolismo do pai e o relacionamento abusivo dos pais. Mas, naquela época, na Manchester dos anos 1940, situações como essa não eram incomuns — muitas crianças enfrentavam dificuldades semelhantes.
Ela nasceu em 23 de julho de 1942, em Gorton, Manchester. Sua mãe, Nellie, trabalhava como operária, enquanto seu pai, Bob, era montador de aeronaves durante a Segunda Guerra Mundial. Ele esteve ausente nos primeiros anos de vida dela, servindo ao país no Norte da África, em Chipre e na Itália.

A casa da família era apertada e deteriorada, e a menina dormia em uma cama de solteiro bem ao lado da cama de casal dos pais.
Depois da guerra, o pai mergulhou na depressão e no alcoolismo. Os abusos verbais e físicos contra Nellie se tornaram tão intensos que a garota foi enviada para morar com a avó, Ellen, embora ainda passasse algum tempo com os pais.
Ela saía sempre que a violência começava — o que era frequente.
Apesar do ressentimento que sentia pelo pai, mais tarde ela creditou a ele o fato de tê-la ensinado a se defender e a proteger a irmã, Maureen, contra valentões.
Por volta dos oito anos, um garoto da vizinhança arranhou suas bochechas, fazendo-a sangrar. Ela correu chorando para o pai, que ameaçou “dar uma surra” se ela não revidasse. Seguindo as instruções dele, ela foi atrás do garoto e desferiu uma série de socos, lembrando depois: “Aos oito anos, eu tinha conquistado minha primeira vitória.”
Bob havia sido campeão de boxe, e parte de seu treinamento acabou influenciando as meninas.
Ainda assim, os abusos que ela presenciou em casa deixariam uma marca profunda — uma que mais tarde surgiria em seus próprios comportamentos sombrios e sádicos.
O afogamento que mudou tudo
Na adolescência, ela criou uma amizade próxima com um garoto de treze anos da vizinhança chamado Michael.
“Eu me tornei muito protetora com ele”, disse ela mais tarde.
No verão de 1957, a tragédia aconteceu. Michael a convidou para nadar no reservatório local, mas ela não pôde ir. Naquela noite, soube que ele havia se afogado.

Devastada e culpando a si mesma, ela buscou conforto no catolicismo romano. Pouco mais de um ano após concluir o ensino secundário, recebeu sua primeira comunhão em 1958.
Como muitos adolescentes, saía para dançar, ir ao cinema e até jogar bingo, mas sua vida aparentemente normal começava a mostrar rachaduras. Por trás da superfície, um lado mais sombrio começava a surgir.
Um lado obscuro aparece
Seu primeiro emprego foi como assistente administrativa em uma empresa local de engenharia elétrica. Ela fazia recados, datilografava e preparava chá. Era bem-quista, e quando perdeu o salário da primeira semana, as outras mulheres juntaram dinheiro para ajudá-la. No entanto, a desconfiança surgiu quando ela repetiu a mesma história novamente.
Ela também fez aulas de judô, ganhando reputação por se recusar a soltar o oponente.
No final de 1958, recebeu um pedido de casamento do namorado de 16 anos, Ronnie Sinclair, em seu aniversário de 17 anos. Inicialmente aceitou, mas terminou o relacionamento alguns meses depois, afirmando que o jovem era imaturo e incapaz de lhe oferecer a vida que desejava.
Logo, outro homem entraria em sua vida — um homem que se tornaria inseparável dos crimes horríveis que ela cometeria.
O encontro com Ian Brady
Cerca de um ano depois, durante uma entrevista para um emprego de datilógrafa em uma pequena empresa química em Gorton, ela conheceu Ian Brady. A conexão foi imediata e intensa, o que mais tarde ela descreveu como uma “atração fatal”.
A essa altura, a garota havia se tornado Myra Hindley e, junto com Brady, ficaria conhecida como parte dos Assassinos dos Pântanos, responsáveis por uma série de assassinatos que chocaram o Reino Unido por décadas.
Embora o início do relacionamento fosse marcado pela admiração compartilhada por poetas como William Wordsworth e William Blake, o vínculo rapidamente tomou um rumo sombrio. O casal se considerava intelectualmente e culturalmente superior aos outros e desprezava colegas da classe trabalhadora.
Brady mergulhou em filosofias niilistas e nos escritos do Marquês de Sade, defendendo uma visão de mundo em que agir por impulso, sem consequências, era aceitável. Essas ideias distorcidas logo passaram a influenciar também a vida sexual do casal.
Hindley relataria posteriormente abusos horríveis, afirmando que Brady a humilhava e agredia.
Brady também tentou manipulá-la para odiar pessoas negras e judeus, enquanto zombava de sua fé religiosa.
Ian Brady: “Quero cometer o assassinato perfeito.”
Inicialmente, o casal comprou armas para cometer roubos, mas suas ambições rapidamente evoluíram para algo muito mais perverso. Brady mostrou a Hindley um livro chamado Compulsion, sobre o sequestro e assassinato de uma garota de 12 anos chamada Myra — um prenúncio perturbador.
Os assassinatos começam
Em 12 de julho de 1963, Hindley soube do plano de Brady de cometer o “assassinato perfeito”. Ela dirigia uma van enquanto Brady a seguia de motocicleta, usando o farol como sinal quando escolhia um alvo.
A primeira vítima seria uma jovem que ela reconheceu como vizinha — então decidiu ir embora. Pouco depois, porém, ela deu carona à adolescente Pauline Reade, de 16 anos, colega de escola de sua irmã Maureen, atraindo-a com a promessa de ajudá-la a encontrar uma luva perdida.
Brady encontrou as duas em Saddleworth Moor, levando Reade para dentro da mata enquanto Hindley permanecia na van. Trinta minutos depois, Brady voltou sozinho. Pauline Reade havia sido brutalmente atacada, com a garganta cortada com “força considerável”.

Quando Hindley perguntou se Reade havia sido abusada, Brady respondeu friamente: “Claro que sim.”
Ele a enterrou no pântano, e Hindley mais tarde admitiu ter participado do abuso sexual.
Nos dois anos seguintes, o casal atraiu John Kilbride (12), Keith Bennett (12), Lesley Ann Downey (10) e Edward Evans (17) para armadilhas semelhantes. Algumas vítimas foram levadas para a casa deles na Wardle Brook Avenue, outras para o pântano. Downey e Evans foram mortos na residência, com os corpos posteriormente enterrados no pântano.
A prisão e a vítima desaparecida
O assassinato de Edward Evans envolveu o cunhado de Hindley, David Smith, que testemunhou Brady atacando Evans com um machado e depois o estrangulando. Smith contou mais tarde às autoridades:
Hindley gritou: “Dave, ajude-o.”
Smith ficou horrorizado demais para agir naquele momento, mas, depois que Brady saiu, voltou para casa, tomou o chá feito por Maureen, vomitou e, por fim, relatou à polícia o que havia visto.

Dois policiais, disfarçados de entregadores de pão, visitaram a casa na Wardle Brook Avenue e acabaram encontrando o corpo de Evans. Hindley foi presa em 11 de outubro de 1965, como cúmplice de assassinato. Logo, os investigadores a ligaram, junto com Brady, a outras crianças desaparecidas, com vizinhos fornecendo informações cruciais.
Embora a maioria dos corpos tenha sido posteriormente encontrada, Keith Bennett, de 12 anos, nunca foi localizado. Brady admitiu os assassinatos de Bennett e Reade em 1985, mas os restos mortais de Bennett continuam desaparecidos. As buscas seguiram até recentemente, inclusive em 2022.
Vida atrás das grades
Quando Brady e Hindley compareceram ao tribunal em 1966, toda a nação acompanhou com atenção.
As fotos de ficha criminal — especialmente o olhar vazio de Hindley e seu cabelo loiro platinado marcante — tornaram-se infames, gravadas no imaginário público como símbolos perturbadores de traição e horror.
O julgamento, que durou quatorze dias, atraiu intensa atenção e deixou pessoas em toda a Grã-Bretanha chocadas e indignadas. A segurança era tão rigorosa que o tribunal foi equipado com vidro à prova de balas, pois as autoridades temiam que alguém tentasse atacar o casal diante da fúria nacional.
Brady não demonstrou remorso por seus crimes. Ele assumiu completamente o papel de vilão, chamando a si mesmo de “maligno” e expressando abertamente orgulho pelo que havia feito.
Durante o julgamento, Hindley sentou-se no banco das testemunhas ao lado da mãe, Nellie. Ao ser questionada sobre seu relacionamento com Brady, disse: “Eu o amava, e ainda… eu o amo.”
“A mulher mais maligna da Grã-Bretanha”
Hindley foi condenada à prisão perpétua e permaneceu encarcerada pelo resto da vida. Apelidada pela imprensa de “a mulher mais maligna da Grã-Bretanha”, ela recorreu repetidamente da sentença, insistindo que havia se reformado e não representava mais uma ameaça, mas nunca foi libertada.
Ela morreu de pneumonia brônquica em 2002, aos 60 anos. Brady morreu 15 anos depois, em 2017.
As fotos de Hindley com o cabelo descolorido tornaram-se presença constante na mídia britânica por décadas, e seus crimes continuam entre os mais chocantes da história do Reino Unido, ainda causando arrepios em quem lê sobre eles.
Seus crimes deixaram uma marca duradoura na cultura popular. Sua imagem, frequentemente comparada à mítica Medusa, tornou-se símbolo do “mal feminino”, inspirando desde obsessão da imprensa sensacionalista até obras de arte controversas, como a exposição Sensation de 1997, com a obra Myra, feita a partir de impressões das mãos de crianças.
LEIA MAIS